quinta-feira, 18 de novembro de 2010

SOBREMORTE ESGANIÇADA

SOBREMORTE ESGANIÇADA

Quando a vida se submete à fraqueza
Suas costas já não ficam mais eretas
E seus olhos se tornam fadigados
Sobrepostos ao seu aspecto de julgar tudo o que vê
Se transfigurando em mais uma mentira
Do que qualquer outra coisa
Ao reclamar somente e sempre por persuasão
Do que não é sensível

Seu sorriso antes estendido
Foi arrastado pela maré do despacho
Enquanto suas pernas não se movem
Por estarem atreladas e enterradas na graxa morna
Feito bustos de Caligola e Nero
Retorcidos pelos sons do tempo que se vê

Seu combustível? É a fumaça da destruição alheia
Sua prece? É o fogo daquilo que seus tortos dedos não quebraram
Seus aspectos são de doença encardida pela sombra
E daqueles bigodes de ratos que se sujeitam a comer sobras
Sua fala não passa de uma constante lamúria:
- Tudo pelo meu trabalho e meus mortos!

Seu maior sinal não é a velhice
Mas sim a não vontade de falar do bom
Perante o mundo
O ar que se respira é a lágrima
De não se lembrar mais do que se era
E, ademais, por não ter se conhecido
Para no final se arrepender
De todas as suas chances não gastas e desperdiçadas
Por pura covardia
Feito temperos de deliro
Que participam da sua celebração adúltera
Representados por sorrisos amargos de Bonfim

Por faltarem abraços de sinceridade
E por transcrever a diversão em banalidade
O sentido se esvai
E o resto se torna vadiagem
Perseverança de não-ser
Em busca do descaminho mais sincero
Que é a distração do acúmulo de dor
Acumulado por promessas capitais
Feito títulos de renda
Fazendo do que era vida
Uma espera eterna de manutenção

E talvez por isso mesmo
Haja reconhecimento da armadilha:
A humanidade persiste em querer achar sentido onde não há
Concretizando pensamentos abstratos que tratam de justiça:
Talvez o único lado positivo de se transformar em sobrevida
Seja o fato de não haver como morrer
Mas sim participar de uma sobremorte eterna

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