sábado, 31 de julho de 2010

A CASA VAZIA

A CASA VAZIA

Estou cançado de só ter dor para compartilhar
Mesmo sem ter ninguém além das minhas memórias para servir de ouvinte
A morada se encontra vazia desde quando a deixaram
Completamente empoeirada
Nem sei mais onde fica a minha casa
Seus vidros se encontram sujos ao extremo de não haver janela

Não há companhia com quem compartilhar
Se eu voltar para fora
Eu nunca mais entrarei em meu lar
Mesmo sem ter quem chamar de visita

Faz dias onde ando encontrando quem eu amei
Só porquanto o sono domina
E eu me esqueci de levantar
O limiar entre o sono e o real é tão grande que
Só de pensar em algo é como se tivesse feito

Teias de aranha no quarto onde durmo sentelham minha morte
Infelizmente a morte é bem maior do que deixar de respirar
A qual me despreza tanto
Ao ponto de não me visitar

Sou grão de universo e meu grão é tudo que sou
Feito ópera de graça e curta
Assistida simplesmente por não ter nada a perder
E quando ela acaba você se lamenta:
- Já acabou?

Como se houvesse valor no vazio
Mas não há
É só uma madrugada e um deixar de ser
Depois de fração de segundo em seu tempo
O universo nos apaga e nem sente nada

Sou tão falho e gasto
Seria um martírio me olhar no espelho toda tarde
Ainda bem que não me lembro em que canto da casa eu o coloquei

Meus cobertores já não esquentam porque a noite é fria:
- Quando há dia?
O frio não me incomoda mais

Meus olhos são tão contraídos
Ardidos
Que me enganam de vez enquando:
Costumo escutar passos atrás da porta

Os sorrisos alheios são tão antigos que não há mais inveja
A velhice é velha mas não sei minha idade
Talvez nem seja tão velho assim
Mas me lembro daquele ginásio verde, do basquete e a companhia
Minha postura tomou conta de mim:
Minha cor é cinza

Espero algum milagre que me faça voltar no tempo
Mas não há mais esperança
Acho que agora é mais uma manhã mas ela já foi embora
Olhei no relógio sem ponteiros e me atrasei
Perdi a hora por preguiça e por miséria

Não há banheiro e se há
As torneiras jorram foligem e cinzas
Minha falta de café da manhã é um sonífero que me mantém com mal hálito
Todo dia
Toda tarde
Toda noite
Sempre

Sons graves ecoam pelas salas
Não tenho mais medo de ver o que é
Como se os sons agora fossem agudos:
A tinta das paredes já não há

O azulejo já não sólido faz do meu andar impreciso
Como se não andasse há tanto tempo que perdi a conta

Me apoiei em uma parede
Ela não me deu apoio:
Caí triste no chão

Chorei, então, por me esquecer de como era andar
Ao levar minhas mãos até meu rosto, senti:
Havia barba e pele ruim
Já não era mais garoto

Não acreditava em mais nada

Foi esse o instante em que a minha casa me dominou:
Ela começou a girar e a girar e a rodar e a serpentear sobre mim
Minha casa já não me deixou sair de dentro dela

Tive de vomitar o que eu não tinha:
Quando decidi viver eu já não sabia mais
Vomitei, então, meu resto de vida pra fora

Pelo menos estava em casa

quinta-feira, 29 de julho de 2010

CANÇÃO DA INFÂNCIA (Tempo e Lembrança)

CANÇÃO DA INFÂNCIA (Tempo e Lembrança)

Vivemos em qualquer lugar enquanto a viagem é sem direção
Nenhuma luta faz sentido entre rostos sem expressão
Onde não o vejo e ninguém vê

Ao parecermos diferentes somos todos iguais
Onde não me vejo e ninguém te vê

Mas de graça ou de brinde sempre existe um leque
Que espanta fantasmas de um pobre moleque
Como a flor de giz que você sempre riscou
Mas nunca entregou à ninguém

Tempo e mais tempo
Lembrança e lembrança
Não olhe para trás

Nossos olhos não precisam mais chorar solidão
Onde estamos cegos e os outros também estão
Porque, de cima, as luzes da cidade são como estrelas no chão

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A IRONIA DO DESTINO

Versos antigos.
Nem me lembro se eram para ser canção ou poema.

A IRONIA DO DESTINO

Todo dia é um dia inteiro pela metade
E o hoje passa cada vez mais à vontade
Todo dia ao meio-dia eu percebo que já é tarde
E o ontem vai crescendo sem nenhuma piedade
Pelos cantos escuros da cidade

Todo dia à meia-noite a calmaria chega atrasada
E o amanhã espelha suas luzes na calçada
Todo dia a melodia da rotina se vê errada
E o pôr-do-sol descalço agora é essa barra pesada
Pelos cantos escuros da madrugada

Todo dia à meia-noite o meio-dia tem que acordar
E o amanhã faz você achar que está numa esteira devagar
Todo dia a noite e o dia brincam de pega-pega sem se encostar
E a tarde todo dia tem aquele Déjà vu familiar
Pelos cantos escuros de um jogo de azar

Todo dia o dia alega que a noite é sentimental
E a manhã do amanhã tem medo de ser sempre igual
Todo dia a irnonia do destino pula o seu carnaval
E de noite a tarde reclama do seu dia-a-dia habitual
Pelos cantos escuros da vida real

O RITMO DO TEMPO

Poema novo e sincero.

O RITMO DO TEMPO

Eu tenho medo de desligar a televisão
Agora sinto o quanto custa a liberdade de expressão
Noite passada eu sonhei todos os pesadelos existentes
E assim percebo que os adultos são crianças descontentes

Eu fecho as luzes e apago o portão
E me transformo em outros para chamar a atenção
Vivo em um mundo sem nexo de burgueses escravocratas
E no ninho de ladinos mafiosos que fingem ser piratas

Meus olhos já caídos martirizam a inexistência da paixão
Enquanto o suco de caju me destila a escuridão
A mesa fria me entorta e me confirma a alvorada
No momento em que sinos apelam ao réquiem da madrugada

Eu não passo de mais uma alma marcada no meio de um milhão
Que como todas as outras pensa ser diferente na multidão
A humanidade já transformou o ser humano em labirinto
E ainda por cima me mastiga ignorando o que sinto

Agora eu aprendi o quanto dói brincar de revolução
Não entendo como as pessoas não enxergam onde estão
O sadismo imperante me sufoca ao olhar para trás
E meu futuro iludido é como uma câmara de gás

Cada instante jogado fora não pesa por ilusão
E a morte se aproxima e se apresenta em prontidão
Se possuo acompanhantes eles se perdem em memória
E eu já não tenho dignidade suficiente para poder ter glória

Eu não tenho o que preciso para ser senhor de minha escravidão
E se um dia tive casa, o meu tempo faz qualquer barraco em mansão
Os derrotados se cansam e dormem frente ao fracasso
Enquanto canções de ontem fazem desse mundo aquele espaço

A vida já não vive e os meus pesadelos ficarão
Os finais são sempre os mesmos sem abrir nenhuma exceção
E meu corpo se enfraquece e envelhece e se esquece sem aprender a dança
Orgulhoso enquanto há tempo de dizer: sou um velho em corpo de criança