quinta-feira, 29 de abril de 2010

CONTANDO FÓSFOROS (Menino Cego)

CONTO DE FÓSFOROS (Menino Cego)
(Lucas P. "Delavour")

Menino cego
por onde você anda?
Visitando o cemitério
Ou no alto da varanda?

Menino cego
Para onde você vai?
Chorar por sua mãe
Ou rezar pelo seu pai?

Menino cego
Por quem você chama?
Alguém que não te quer
Ou alguém que não te ama?

Menino cego
Está vendendo fósforos?
Me permita ver
O fogo nos seus olhos?

Menino cego
Sente que está morrendo?
Seus fósforos se apagam
E lá fora está chovendo.

Menino cego
Seu estado é normal.
Quem sabe um dia possa
Ser história num jornal?

Menino cego
Você se foi cedo.
Porém foi corajoso
Encarando o fim sem medo.

Menino cego
Lhe desejo boa sorte.
Porém, infelizmente
Desconheço o pós-morte.

domingo, 4 de abril de 2010

CARROSSEL EM CHAMAS (Dança em Volta do Fogo)

CARROSSEL EM CHAMAS (Dança em Volta do Fogo)

Como pode existir um dependente químico de maldições
Nadando no mar frio onde jazia no passado o fogo apagado das revoluções?
Os fantasmas da guerra permeavam a carne
Mas armadilhas e cruzes não têm nada a dizer

Aves da morte circundavam em espiral dois miseráveis
A negritude dos pássaros era confundida ao longe com um ciclone de fuligem
E não era festa junina
Aquelas crianças dançam em torno da fogueira pensando em cores
Agora não havia mais inferno nem verão:
- Cansei de perder

Ninguém gosta de perder
Mas todos continuam perdidos

- A madeira envolta em chamas já foi um carrossel um dia

O céu estava preto, roxo, amarelo e cinza
Não havia comida e nem no que se pensar
As crianças engoliam tempo
Portanto o episódio merecia destaque:
- Nós existimos para que mesmo? É que eu me esqueci...

Dois garotos sujos conversavam sozinhos em volta da fogueira
Mas eles não se entendiam
Eles se diziam mudos quando conversavam
Apenas quando falavam

Um garoto possuía blusa branca e o outro camisa amarela
Ambas lambuzadas de lama e cinza
Mas eles trocavam suas vestimentas às vezes:
- Eu quero ser você agora...

As crianças não possuíam máscaras para trocar
Então não fazia a menor diferença:
Elas trocavam poeira

Não havia provas de vida ou coragem
Mas a fumaça sufocava
O grupo de solitários precisava respirar um pouco

E feito uma intervenção divina o céu se abriu
Por conta de uma tempestade de areia:
- Há tanto tempo que eu não vejo o oco assim...
- Esses brilhinhos distantes acompanham o azul
- Eu sei, não sei

As crianças se sentiram aquecidas com o calor do frio do sereno
E começaram a cantar:

- Será uma estrela ou será que é um avião?
Olho para cima com meus pés no chão

- Será uma estrela ou será que é um avião?
Não é assim tão simples uma questão de sim ou não

Não era uma estrela nem um avião
Eram os braços cruzados da eterna solidão
Que os atormentará eternamente
Sem saber ao certo a causa e o motivo de se haver um deserto na multidão

A BELEZA NÃO PRECISA POSSUIR UM TÍTULO

A BELEZA NÃO PRECISA POSSUIR UM TÍTULO

Toque delicado:
Lábios suaves
Se encostam aos meus

Gestos
Que descobrem o íntimo
E suspendem o tempo
Ao toque

Mordida
De leve
Em arrepios sem medo
Calmos
Entregues
Amargos
E ainda assim
Eternamente doces

Beijo molhado
Lento
Gostoso
Com os olhos fechados
Mas o respectivo rosto
Se encontrava
No meu pensamento
Como se nada mais importasse
Ou merecesse acontecer
Ao redor