terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O ANJO DAS ASAS DE COBRE

O ANJO DAS ASAS DE COBRE

Cada segundo corrói
E a espera é ácido que mata
A crítica é o espasmo do ser
Investido pela culpa de ser de cobre:
As asas que já brilharam
Por que hoje se enferrujam?

Eu já não sou mais tão apaixonado assim...

A cegueira do contorno da assombração mais vil
Se faz esperar na minha espera
Por isso, eu digo:

-Se foi...

Imerso nas sombras do começo ao fim
Enquanto coroas de espinhos se entrelaçam e se enterram
Enterrados em mim

Meus olhos já estão completamente brancos
Uma vez que eles perderam a íris:
Meu choro é graxa

Meu brilho que me ofuscava agora se secou
Não há mais pingos de ouro
Agora é cobre
Que cobre o meu rancor

Batem na porta do meu quarto trancado em treva
E eu me abaixo e eu me escondo, com medo, esperando irem embora
A distorção anti-patética me dilacera:
Vomito asfalto

Eu fui dissolvido
Nada mais importa de verdade:

-Só me deixem aqui, só...

Me tornei, então, o limiar entre o sólido e o líquido
Que é uma mistura grotesca de perdido no nada
Nojento...
Isso porque não vim falar de sangue no sangue

O restinho de luz guardado em mim se espairece
Eu não sou mais o que eu sou
Eu sou o que eu não era
Feito uma engrenagem queimada ou perdida no escuro
No escuro...

A minha culpa se entorpece no sentido degenerativo e redundante
Só havia mentira:

- Chega, chega. Chega e chega!

Enquanto isso, as pessoas morrem
Viajam e se apaixonam por outras
E te esquecem

Ninguém te respeita trancado:
Sou um anjo de cobre que desejava ser esculpido em pedra
E ser lembrado para sempre

Mas era sempre assim:
Estava no fundo do poço

- Não... Não abra a porta!

Há o flagelo
Mas ninguém conseguirá abrir, de fato, a porta

O anjo gritava grave e agudo
Desafinado
Refinando toda a insânia e a perturbação em suas mentes
Mas mentia:
Acordava todos os dias, quando dormia, com hálito de vinil antigo

Ele arranhava as próprias unhas em suas asas
Até o dia em que perdeu as unhas...
Ele batia seu rosto contra a parede e a mordia com seus dentes
Até o dia em que perdeu os dentes e machucou o rosto...
Ele olhava as suas asas sem se preocupar com o tóxico
Até o dia em que perdeu os olhos...

Não lhe sobrou mais nada
Resolveu dissolver o próprio sangue na água
Estando preso em sua gaiola
E assim haveria de ser
Não sendo:

- Eu já não me era mais

2 comentários:

  1. Não sei muito bem expressar o que senti agora, acabei de lê-lo, mas me lembrou um tanto do trecho da carta do Van Gogh, que acabei postando no qquid, e tb de uma música de Hannah (calma, leia o resto do nome uhauiha) Fury, A Latch to Open; podem não tratar estritamente do mesmo assunto, mas eles coexistem: apesar do seu poema ter uma carga impressivamente mais pesada, mais irresoluta e implacável quanto à vida. Qualquer hora, dê uma olhada na carta de Van Gogh e na letra desta música, fazem ótimas pontes com seu poema, que, a propósito, foi lindamente escrito, com todo pathos e dor. É mais ou menos o que tinha em mente pra dizer por agora.

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  2. Wow... amei a postagem Lucasss XD

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