quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

MÃE GENTIL


Poema forte.
MÃE GENTIL

Virgem Maria negra
Iracema vestida de sol
Retrato triste do agreste tropical da morte vida

Havia em seu ventre um menino morto

Virgem Maria se vendia e dançava:
O tempo não se escorria pelos dedos
Os dedos se escorriam pelo tempo

O aborto se dava na favela

A virgem exalava o cio do carnaval
Cortesã proletária da indústria Fome Filho
Rita Baiana de Jerusalém
Sem motivo para comemorar o natal
Uma vez que só havia a fé, os pregos e a estaca

Não havia messias

O comodismo imperava e a seca estava longe
Não havia fome nos campos de corte de cana:
Existiam orações

Padres pregavam a fé na cruz
Santos cuspiam no relento
Santos coisa alguma

A terra ardia pela fogueira de São João
Sendo o ventre do Planalto Central a salvação
No vácuo do ventre da virgem acolhedora
Sem ventre, sem virgem, vazia

O sacrifício se faz por conta da mãe:
O cordeiro mais puro foi oferecido
Para a salvação da inumanidade

Dos olhos da bandeira se escorria uma lágrima

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