quarta-feira, 4 de novembro de 2009

SOLIDÃO SOB A NÉVOA DO OLHAR


Finalmente pronto.
Versos trabalhados há tempos.

Há quem queria musicar, mas fiz sendo poesia.

SOLIDÃO SOB A NÉVOA DO OLHAR

Havia um mendigo bêbado na Praça das Lembranças
Feito uma dança, suspirava pelos cantos bem ali
Havia um porta-luz castanho no feixe das mudanças
Feito a matança, iluminava o ambiente sem fugir

O verde molhado destoava do dourado do outono
E o meu contorno na chuva esperava o meu redor
Perdido na sensação amarga de sono febril sem dono
Em torno da neblina do meu ser que clamava ser um deus menor

O abraço do nada e do vazio me fizeram dormir
Como um mártir que se satisfazia com um olhar
Sem falar na ilusão que ele acreditava sentir
Sem rugir, bradava a guerra que já foi familiar

Um grafite cinza lentamente centelhava a esperança do aposento
Enquanto invento o julgamento-estandarte persuasivo da derrota
Lembro de certa mímica morta pelo sentimento imparcial do vento
Que destruiu meu argumento já perfeito de felicidade rota

Um brinde pagão me fazia olhar pela janela
Já amarela, evitava sua sombra com medo de ser o fim
Assim, perdia minha alma-aquarela feito um rato sentinela
Naquela cela que julgava o invertimento paralelo de um serafim

Os meus versos contradiziam aquela existência
Com a ardência, eu não aceitava ou percebia estar perdido
Feito o mendigo embriagado, cantava sem melodia ou essência
E a ausência despertava a madrugada sem sentido

Ele olhava na boca da garrafa imaginando outra boca
Com sua forca, apertada mais um pouco que outrora
E a aurora roxa que sufocava lá de dentro era oca
Sob sua roupa que se fazia grilhão maior que o peso de fora

Eu enxergava qualquer coisa sem querer fazer nada
E confirmava: aquela epopéia era realmente de um só
Com suor, enfileirava fileiras de poeira com cevada
E na outra mão se fazia e desfazia o pó

Nisso, a praça e o mendigo sumiram sem mais adeus
E há poucos que dizem que foi causa de Deus
Mas nenhum dos loucos realmente via outro dos seus
Porque o mundo é dos outros, mas os olhos são meus

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