quarta-feira, 28 de outubro de 2009

STAND DOWN TRAGEDY - Part I


STAND DOWN TRAGEDY


CENÁRIO: Palco do teatro municipal
PERSONAGENS: Protagonista, Vermes, Aparições, Platéia.

(Cenário escuro, o protagonista se encaixa no centro enquanto isso vários “vermes” e "aparições fantasmagóricas" se rastejam de forma repugnante no palco. Minutos de silêncio e confusão, depois a luz se acende no proscênio iluminando o protagonista. Os "vermes" e as "aparições" continuam se rastejando normalmente, porém, não invadem o espaço onde há iluminação. Há vários atores espalhados na platéia. Estes serão a "Platéia" apresentada mais tarde. Quando o protagonista começa sua fala os vermes se abaixam no chão e as aparições saem de cena)

PROTAGONISTA: Sejam bem vindos ao útero privado da minha mente. Aqui se escondem os meus pensamentos mais reclusos. Aqueles que vocês NUNCA vão saber. Mas hoje à noite, agora, vocês terão que me ouvir, e o MELHOR de tudo: Vocês não dirão NADA. Ficarão de boca FECHADA. Vocês não têm escolha!

PLATÉIA (em uníssono): Quem disse?(Os vermes se agitam)

PROTAGONISTA: Está bem... (os vermes abaixam) Como isso sempre acontece nos teatros, eu vou conceder a vocês mais dois minutos para desligar o celular. Portanto, se os publicitários e os executivos que estão aqui presentes só de corpo ainda não desligaram o celular, concedo a vocês esse tempinho extra, porque se eu ouvir algum barulho deles aqui hoje, a coisa vai ficar feia (pequena pausa de silêncio). Eu estou falando sério! (as luzes do teatro se acendem, os vermes se agitam) Vamos, desliguem! Se já desligaram verifiquem! Agora! (luzes se apagam e há novamente o foco no protagonista, os vermes abaixam)

PLATÉIA (em uníssono): Quem disse?(os vermes se agitam)

PROTAGONISTA (Desanimado): To vendo já... Se eu não arrancar as minhas mascaras vocês não vão me deixar em paz, né? Então tá bom! Eu vou tentar... (os vermes abaixam) Mas é difícil... Não garanto que eu vá conseguir.

(silêncio, aparições cruzam a parte de trás do palco sem encostar na luz do Protagonista)

PROTAGONISTA (desanimado): As vezes(as aparições vão embora) eu acho que o mundo não tem conserto... Muito menos vocês... (aparições aparecem, silêncio) Quantos de vocês (aparições somem) sabem o que é cruzar a Cidade dos Condenados numa madrugada vazia com os versos na cabeça: "Eu não quero sentir a dor/de um solitário trovador"? O vazio da Praça das Lembranças é o meu lugar preferido na cidade... (aparições aparecem, silêncio) porque as pessoas são assim?(aparições somem) Porque vocês são assim? O mundo só é essa bosta que é por causa de vocês!(os vermes se agitam) Eu faço minha parte seus retardados... (aparições aparecem, silêncio) olhem nos meus olhos...!(as aparições vão embora e os vermes se abaixam) O que vocês vêem? Eu não sei vocês, mas dentre as minhas qualidades, está o poder de enxergar o que há por trás dos olhos das pessoas... Infelizmente, esse é - também - o defeito que dói mais em mim... (Silêncio as aparições aparecem) É triste, sabia? (as aparições vão embora, silêncio) Em quantas pessoas vocês aí já pisaram? É claro... Porque para se subir é necessário fazer alguém descer... Empurrar o crânio de alguém pra baixo. Garanto, que quanto maior for a posição social no trabalho de vocês mais gente vocês já derrubaram... (exaltado e fora-de-controle, as aparições aparecem e os vermes se exaltam) E vocês não ligam, porra! Todos vocês se esquecem de que todas as pessoas são pessoas! Eu estou no mesmo nível que vocês, eu estou no mesmo nível que os vermes, mas pelo menos eu enxergo! E vocês? Garanto que há os que ficaram ofendidos... (as aparições vão embora e os vermes se acalmam um pouco) É, né? É horrível ouvir a verdade. É sempre mais fácil quando sobe alguém no palco e começa a falar mal dos judeus, dos veados, das burras... (os vermes se acalmam) É, minha gente... A vida não é "ridendo castigat mores". Bem... Pelo menos isso para os que estão me ouvindo! O pior são esses "papais" que vieram aqui só pra assistir a peça dos filhinhos, tirar umas fotos e ir embora. E que não escutam nada e a ninguém. Sinto muito retardados com complexo de Deus, (os vermes andam levemente) mas vocês têm que me ouvir agora! Você não faz bosta nenhuma da sua vida e ainda acha que está com a razão? Que tipo de retardado você é?(os vermes se exaltam) Só porque é mais velho? Olha pra mim cara... Garanto que eu já vivi e sofri muito mais que você em toda a sua vida! (finge que cospe na platéia, os vermes se exaltam) eu tenho nojo de vocês! Tá estressadinho, meu irmão? Então vai embora! Vai... Cagão... (vermes completamente exaltados) Cagão!(os vermes ficam só exaltados) E os filhos desses pais ainda falam com certeza absoluta: "meu pai? Acha... Ele chegou aonde chegou com o próprio suor, nunca explorou ninguém!" É claro... Um filho de político corrupto jamais diria que o pai é...

(entra uma aparição no palco pela direita dos espectadores e entrega um copo d'água para o protagonista e sai pelo mesmo lugar que entrou, não encostando na luz do proscênio; enquanto o Protagonista bebe água, os vermes lentamente vão se acalmando de forma que quando o Protagonista termine de beber água, todos os vermes estejam abaixados)

PROTAGONISTA (aliviado): Obrigado... Eu estava precisando de um copo d'água...

(entra outra aparição em cena pela esquerda dos espectadores e pega o copo sem encostar na luz, voltando pelo mesmo lugar que entrou)

PROTAGONISTA (indagado): E eu já me apaixonei... E vocês?(aparições aparecem) Eu só me apaixonei por duas pessoas de verdade: a "QualquerNome" e a "Mímica"(aparições se exaltam). Ambas estão mortas agora... (aparições vão embora) pelo menos pra mim. Eu cresci com a "QualquerNome" e ela cresceu comigo. Foram longos anos de namoro e quebras... Até que terminou da maneira que acabou. Por causa de uma foto... (aparições aparecem) Eu aprendi bastante com ela, e ela aprendeu bastante comigo. Pena que nós nos esquecemos. Mas no fim foi até bom... Porque eu não sofri no final. Nós dois fomos jogados dentro de uma tormenta. Ela morreu e eu não. Ela cedeu à mesmice, perdeu sua personalidade. Se você visse seu cadáver hoje, ia até se assustar com a quantidade de libido no rosto... (aparições desaparecem) Pois é... O meio muda as pessoas... Enquanto eu, posso não ter cedido à tormenta, mas dá pra ver o resultado da luta com as cicatrizes no meu rosto até hoje. Já a Mímica... Ah, a Mímica... Como ela era linda... Eu olhava pra ela de longe há dois anos. Desde o dia em que eu a vi (aparições aparecem). Nunca cheguei a namorá-la... Mas certo dia ela foi viajar, e a confusão trouxe o vento de lá... E o vento a matou. Pouco antes dela ser minha... (aparições desaparecem) Cheguei tão perto! É uma pena... Ela é a prova de que rostos bonitos sofrem primeiro...

(um verme da esquerda do palco, na visão da platéia, tira do bolso um espelho e dá na mão do protagonista sem encostar na luz do proscênio, depois volta para sua posição. O Protagonista se encara no espelho durante um tempo e depois o entrega para um verme do lado direito do palco pela visão da platéia, este o recebe e coloca imediatamente no bolso sem encostar na luz do Protagonista.)

PROTAGONISTA:Vocês já pararam pra pensar que todo velho já foi uma criança? Não... Sério mesmo! Já imaginaram que todas as crianças vão ser velhas? (aparições aparecem, silêncio) Todos os bebês vão decepcionar alguém. Todos os bebês vão alegrar alguém. Todos os bebês vão explorar alguém... E os velhos? Parece que eles são perdoados de tudo que já fizeram... A maioria dos bebês vai fazer sexo, e a maioria dos velhos já fez. Todo velho já foi adulto e todo adulto já foi criança... E por que as pessoas vivem tratando os bebês como retardados? (aparições desaparecem) eu não entendo... Sabe... Vasculhe algum canto da sua memória... Garanto que todos vocês já pensaram em mudar o mundo de alguma forma! E olhem pra vocês agora! (silêncio) Não é porque vocês já estão velhos que vocês não podem fazer a diferença! Caralho!(os vermes se agitam) Não precisa ser um super-herói, mas fazer o básico sabe? Pensar no outro... TODOS NÓS SOMOS SERES HUMANOS!(os vermes se exaltam) SOMOS TODOS IGUAIS BRAÇOS DADOS OU NÃO. E sim, eu OUÇO Geraldo Vandré. E OUÇO mesmo! (aparições aparecem, silêncio, os vermes abaixam) Minha vida é um inferno... Meu mundo é um inferno... E eu já estou cansado disso(aparições desaparecem). E é uma pena eu só poder ser ouvido porque estou em cima de um palco num teatro, porque vocês decidiram ver seus filhos numa "pecinha de teatro". Escuta cara...(vermes se agitam) Eu sou um artista, no âmago da minha existência. E é isso aqui que eu sou! Com todas as palavras!(vermes se exaltam) Então faça a diferença! Faça a diferença. Porque eu faço acontecer... E eu ando a pé sempre... E eu vejo cada detalhe da Cidade dos Condenados que vocês nem param pra pensar...(vermes abaixam, aparições aparecem) Às vezes é difícil ser a Hiena solitária... Vocês nem imaginam... E Quando eu ando por essas ruas, há uma música que é minha vida, que não sai da minha cabeça(as aparições abaixam).

PROTAGONISTA ou OUTRO ATOR QUE O DIRETOR ACHAR MELHOR: "Eu sou o filho da ira e do amor/o Jesus dos Subúrbios/Vindo da bíblia dos "nenhum de nós"/numa constante dieta de refrigerante e ritalina/ninguém foi pro Inferno por pregar o que eu defendo/Pelo menos até onde posso contar/com aqueles que eu convivi/E não há nada de errado comigo/É assim que eu deveria ser/Numa terra de faz-de-conta/que não acredita em mim/Tento arrumar minha televisão sentado no meu crucifixo/na sala de estar, o meu útero privado/enquanto minha mãe e meu padrasto estão fora/Cair de cara no amor e no débito/E o álcool e o cigarro e o meu ópio/me mantém insano enquanto preparo o ópio de alguém/E não há nada de errado comigo/É assim que eu deveria ser/Numa terra de faz-de-conta/Que não acredita em mim//No centro da terra/no estacionamento/na Praça das Lembranças onde eu estava/A moto não passava de uma mentira/Ela dizia:"Casa é onde seu coração se encontra"/Mas... que vergonha/Porque os corações não batem da mesma forma/Eles batem descompassados/Cidade dos Mortos/No fim de outra estrada perdida/Sinais que apontam pra lugar nenhum/Cidade dos Condenados/Hoje as crianças estão perdidas com rostos sujos/E ninguém parece se importar/Eu li as paredes grafitadas na estalagem sanitária/Como se fossem escrituras sagradas num Shopping Center/E no entanto parecia confessar/Não dizia muito/Mas só confirmava que o centro da terra/é o fim do mundo/E eu poderia me importar menos/Cidade dos Mortos/No fim de outra estrada perdida/Sinais que apontam pra lugar nenhum/Cidade dos Condenados/Hoje as crianças estão perdidas com rostos sujos/E ninguém parece se importar//Eu não me importo se você não/Eu não me importo se você não/Eu não me importo se vocês não se importam/Eu não me importo se você não/Eu não me importo se você não/Eu não me importo se vocês não se importam/E eu não me importo!/Eu não me importo!/Todos são tão cheios de merda/Paridos e criados por hipócritas/Com os corações reciclados porém nunca salvos/Do berço ao túmulo/Nós somos as crias da paz e da guerra/Da capital da Califórnia ao Oriente Médio/Todos nós somos as histórias e os discípulos do Jesus dos Subúrbios/Nessa terra de faz-de-conta/Que não acredita em mim/Terra de faz-de-conta que não acredita.../E eu não me importo/Eu NÃO me importo!//Minha querida/Você está me escutando?/Eu não me lembro de uma palavra que você me disse.../Nós somos dementes ou eu sou perturbado?/O espaço está entre a insânia e a insegurança/Ah terapia... Preencha meu vácuo, por favor/Será que eu sou retardado ou eu só vivi demais?/Ninguém é perfeito e eu continuo sendo acusado/E por falta de uma boa desculpa/Esse é o meu melhor argumento...//Viver sem respirar é morrer numa tragédia/E correr, fugir/Para encontrar o que você acredita/E eu deixei para trás esse furacão de mentiras infernais/E eu perdi minha fé quanto a essa.../Essa cidade que não existe de verdade/Então eu corri, fui pra longe/Fui para a luz dos masoquistas/E eu deixei para trás esse furacão de mentiras infernais/E eu andei por aqui/Um milhão e uma porcaria de vezes/Mas não dessa vez/Eu não sinto vergonha e não vou me desculpar/Quando não há nenhum lugar que você possa ir/Fugindo da dor/Quando você foi mais uma vítima/Dos contos de outro lar partido.

(A luz no proscênio é apagada. O palco fica completamente escuro. As aparições e os vermes se levantam no escuro e vão embora. O Protagonista continua ali, cabisbaixo até o quase-começo da próxima cena. Enquanto isso a luz do teatro é acesa e cada ator da Platéia fala um dos nomes dos capítulos da Letra de forma aleatória e caótica, se dirigindo ao local da próxima peça ou aos colchetes do palco.)

PLATÉIA: Jesus dos Subúrbios, Cidade dos Condenados, Eu Não Me Importo, Minha Querida, Contos de Outro Lar Partido.

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